“Ok, Google”, como está o ruído hoje?

“Ok, Google”, como está o ruído hoje?

A tecnologia está literalmente na palma de nossas mãos todos os dias. Podemos nos antecipar às variações climáticas, acompanhar o trajeto de nosso próximo ônibus, consultar as condições de trânsito, entre outras facilidades. E se pudéssemos, além disso, também acessar informações sobre a poluição sonora existente em nossos locais de interesse (residência, local de trabalho, etc.)? Essa tecnologia, apesar de ainda não ser difundida no Brasil, já existe e permite que o acesso aos dados de ruído emitidos por obras em andamento.

Obras: uma das piores fontes de poluição sonora.

Britadeiras, bate-estaca, escavadeiras, serra elétrica… numa cidade em constante crescimento e transformação, quem nunca sofreu por conta do barulho intenso gerado por obras?

Em casa ou no escritório, em áreas urbanas ou rurais, milhares de pessoas estão expostas ao ruído da construção de edifícios ou de obras de infraestrutura todos os dias.

Esse tipo de ruído, porém, possui uma particularidade:diferente das fontes de ruído industriais ou comerciais, cuja operação normalmente é constante ou cíclica no tempo facilitando a implantação de medidas mitigadoras, a poluição sonora promovida por obras é intrinsecamente dinâmica, e varia durante todas as etapas da construção em termos de tipo, localização e períodos de operação das fontes sonoras.

A poluição sonora gerada por obras e construções afeta diariamente centenas de milhões de pessoas no mundo, causando danos à saúde.

Fundações, concretagem, acabamento, etc.: cada fase da construção tem características próprias em termos de emissão de níveis de pressão sonora (som alto ou baixo)  e espectros sonoros  (som grave ou agudo), e do período de operação.

Geralmente o maquinário gera ruídos muito altos, em baixas e altas frequências, com características agravantes: ruídos tonais causados pela operação de elementos rotativos (e.g. motor diesel, serra, etc.), e ruídos impulsivos (e.g. bate-estaca, marteladas), que são particularmente prejudiciais para a saúde. Causam estresse, cansaço, transtornos de sono, e potencialmente perdas auditivas e problemas cardiovasculares em caso de exposição prolongada.

Além disso, a intensidade do ruído varia muito significativamente ao longo do dia em função do andamento do projeto: entre períodos mais ruidosos (e.g. bate-estaca) e mais silenciosos (e.g. horário de almoço), podem existir variações de 30, 40 ou até 50 decibels: em outras palavras, existem períodos com ruídos até 100.000 vezes mais intensos que em períodos mais calmos, ruídos esses muito mais elevados que o ruído de fundo habitual e com potencial para atrapalhar nossa vida.

E muitas vezes aquele ruído incômodo da serra elétrica irradia seu tímpano justamente em um momento de trabalho, ou durante uma ligação importante, quando descansa assistindo séries ou tira um cochilo.
Ou no instante exato que seu filho estava finalmente começando a dormir depois de você passar 47 minutos embalando (true story).

Será possível controlar, e até antecipar essa poluição sonora?
Visualizar no seu smartphone o ruído atual e a previsão do ruído para as próximas horas ou dias, da mesma forma que nos antecipamos às condições climáticas antes de sair de casa?

O que existe hoje?

Atualmente a legislação vigente, em especial a norma federal ABNT NBR 10.151:2019, principal referência para ruído ambiental no Brasil, indica níveis máximos admissíveis em função do tipo de área e do período diurno ou noturno. O texto não especifica duração mínima, pois foi pensada para avaliar fontes fixas de ruído, como é geralmente o caso de empreendimentos industriais ou comerciais. Nessas condições uma amostragem curta, tipicamente até 15 min de medição, é suficiente para avaliar o nível de pressão sonora equivalente LAeq (o nível de ruído médio) e avaliar a compatibilidade ou não com aos limites normativos da região.

Muitas vezes as construtoras realizam campanhas mensais de medições de ruído, onde mede-se habitualmente de 5 a 15 minutos em cada ponto, ou até menos. O resultado depende essencialmente das fontes em operação naquele momento, o que pode ser um ruído absurdo ou praticamente nada, dependendo das atividades sendo realizadas no período de medição.

A representatividade de tais campanhas para avaliar o impacto sonoro mensal é então praticamente nula.

Essa metodologia não satisfaz nenhuma das partes envolvidas, pois não permite atender reclamações da população, que muitas vezes chega a acionar as autoridades ambientais competentes. Essas últimas, na ausência de quantificação representativa do impacto real, têm dificuldade para determinar se a obra atende ao permitido, ou se devem ser tomadas medidas de mitigação — ou até mandar parar temporariamente ou definitivamente aquela obra. Existem diversos exemplos de obras que foram autorizadas, apesar do conflito óbvio com a legislação, da mesma forma que outras foram interrompidas, mesmo cumprindo com os requisitos da lei.

Diante dessa situação, como a tecnologia pode nos ajudar a avaliar, antecipar e minimizar esse impacto sonoro?

Gestão inteligente da poluição sonora

A boa notícia é que existe uma solução simples, relativamente barata, e que satisfaz todas as partes interessadas, por meio de uma abordagem diferenciada: O gerenciamento inteligente da poluição sonora, que virou regra para ruído de obras na Europa e na América do Norte.

Esse gerenciamento é baseado em três princípios:

Monitoramento contínuo

Ao invés de realizar campanhas mensais de medições curtas, uma estação de monitoramento contínuo permite registrar todos os eventos sonoros num ponto estratégico na interface entre o canteiro e os receptores mais sensíveis. A tecnologia atual permite discriminar em tempo real esses eventos através de codificação automática, a fim de separar ruídos efetivamente gerados pelas obras, de ruídos produzidos por fontes externas (aeronaves, latidos de cachorros, comunidade, etc.).

Crédito de ruído:

Ao invés de comparar a todo momento um nível de ruído com um limiar, pode ser atribuído um crédito de ruído, negociado previamente com vizinhos e autoridades ambientais. Esse crédito pode basear-se em períodos de durações mais significativa (hora, dia, semana) do que o que é praticado atualmente: a ideia é que os períodos de ruídos intensos inerentes à construção sejam compensados por períodos mais silenciosos. A construtora poderia então ultrapassar pontualmente os limiares normativos quando preciso, porém atendendo globalmente aos critérios locais de avaliação estabelecidos em função do período e da região.

Planificação e comunicação

O terceiro pilar dessa gestão inteligente é a comunicação com o público: disponibilizar os dados mais relevantes para a vizinhança e autoridades, promovendo transparência. Seja através de uma página na internet ou aplicativo, é essencial que o público e a administração possam acessar informações em tempo real — ou quase, além de acessar uma previsão para as próximas horas.

Para que isso funcione, esse crédito deve ser objeto de discussões prévias entre poluidores, receptores e legisladores, a fim de determinar os critérios de avaliação em termos de níveis sonoros e períodos de operação.

Feito isso, as estações de monitoramento de ruído permitem gerenciar essa poluição sonora de forma totalmente automatizada: identificação dos eventos sonoros ligados à obra, gravação do áudio, alertas por e-mail/SMS para o gestor da obra em caso de ultrapassagem dos créditos, disponibilização em tempo real ou por boletins periódicos da situação de ruído para a vizinhança e os órgãos ambientais. Esses últimos podem então eventualmente penalizar os poluidores em caso de não respeito do crédito negociado.

Exemplo de estação de monitoramento de ruído em canteiro de obras (Fonte: 01dB). 

Essa metodologia apresenta então muitas vantagens: as construtoras podem conduzir as obras sem risco de reclamações, as autoridades podem ter a certeza que a poluição sonora atende à legislação, e os vizinhos podem ter a garantia que, em média, terão o sossego que merecem, principalmente nas horas mais sensíveis.

Infelizmente, esse tipo de gestão inteligente ainda é exceção no Brasil, muitas vezes por simples desconhecimento das ferramentas existentes. No entanto, não há dúvida que em um horizonte próximo, todas as obras se beneficiarão de monitoramento contínuo acoplado a um sistema de crédito de ruído, para o benefício de todos. Conciliar o necessário desenvolvimento com o indispensável sossego da população: o futuro nunca foi tão próximo.

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