Barulho, sono e pensamento

Barulho, sono e pensamento

“O barulho é a tortura do homem de pensamento.” Schopenhauer, muito antes das descobertas científicas sobre as relações entre sono e perturbações sonoras, escreveu acertadamente essa frase. Hoje sabe-se que o sono é grande responsável pela criatividade, memória, entre diversas outras funções cerebrais. O ciclo do sono, se perturbado, gera reflexos no período de vigília, mantendo os indivíduos mais ativos, porém com menor atividade intelectual.

Os ciclos do sono

O sono é composto por 2 grandes estágios, o sono REM ou MOR (rapid eye movement, ou movimento ocular rápido) e o NREM (movimento NÃO rápido dos olhos). O NREM ocupa cerca de 75% do tempo do sono e é dividido entre fases que se iniciam na transição entre estado de vigília e sono, e vão até o estágio de sono profundo (DANTAS, Tiago. “Fases do Sono”). Esses estágios são:

  • Estágio 1: É a fase de sonolência, onde o indivíduo começa a sentir as primeiras sensações do sono. Nessa fase a pessoa pode ser facilmente despertada;
  • Estágio 2: Dura em média de 5 a 15 minutos. No estágio 2 a atividade cardíaca é reduzida, relaxam-se os músculos e a temperatura do corpo cai. É bem mais difícil de despertar o indivíduo;
  • Estágio 3: Muito semelhante com o estágio 4, diferencia-se apenas em relação ao nível de profundidade do sono, que é um pouco menor;
  • Estágio 4: Dura cerca de 40 minutos. É a fase onde o sono é muito profundo.e iniciam na transição entre estado de vigília e sono.

Nessa grande fase do sono, sobretudo no período de sono profundo, ocorre a reparação física, o descanso do corpo. Após o estágio 4, há um retorno aos estágios anteriores (3 e 2), como preparação para entrada no REM. Esse é um período de intensa atividade cerebral, similar ao período de vigília, em que ocorrem os sonhos. É fundamental para reparação emocional e intelectual.

Efeitos das perturbações do sono

Situações extremas de privação de sono foram estudadas. Períodos de privação total de sono de 40 horas provocaram distorções perceptivas e irritabilidade, e em períodos de 100 horas até desordens psicóticas. Essas situações extremas não são vivenciadas pela grande maioria das pessoas. Já as interrupções cotidianas do sono são muitíssimo comuns, e seus efeitos podem ser sentidos por quase todos, mesmo sem o saber.

Privações do sono no estágio REM podem acarretar em perturbações psicológicas, na memória, concentração mental e aprendizagem. Perturbações em outros estágios do sono, que levam a uma superficialização do sono, ou seja, impedem seus estágios mais profundos, geram a sensação constante de cansaço. O despertar torna-se penoso, como se o descanso estivesse incompleto. Um exemplo de efeito nocivo das privações do sono é sentido por trabalhadores de turnos noturnos em indústrias. Por se adaptarem ao sono diurno, em período em que os ambientes são mais ruidosos, o sono não é completo. Existem estatísticas que apresentam maior incidência de acidentes de trabalho entre 3 e 5 horas da manhã, revelando os prejuízos causados pela má qualidade do momento de descanso (Cipolla-Neto, 1989).

Um dos principais sincronizadores do sono é o ruído. A audição é o sentido mais suscetível a interferências durante esse período, um instinto de sobrevivência. Assim, um ambiente adequado e silencioso é fundamental para a saúde e qualidade de vida.

Efeitos do ruído sobre o sono

Cada fase de sono tem um limiar de ruído que tolera sem que haja a efetiva perturbação do sono. No momento de transição entre vigília e sono, apenas 3 dB de aumento em relação ao ruído de fundo são suficientes para despertar um indivíduo. Na fase profunda, quarto estágio do sono NREM, são necessários 35 dB (ou seja, uma mudança de 30 para 65 dB são suficientes para o despertar). Já na fase REM, o limiar é de 31 dB. Isso demonstra que fisiológicamente o estágio profundo, de reparação física, é priorizado. O estágio de reparação intelectual é o que sofre mais sob ruído.

Seja qual for o estágio do sono, todos são essenciais para diferentes aspectos, seja físico ou emocional e intelectual. E sobre todos eles o ruído no ambiente provoca prejuízos, tornando o sono superficializado e causando diversos danos. A sensação de cansaço, falta de concentração, perda de memória, irritabilidade, prejuízos à criatividade e pensamento. Schopenhauer estava certo, e a nós cabe a busca de ambientes mais silenciosos e adequados ao sono e à reparação de nossas funções físicas e intelectuais.

As informações trazidas no texto advém essencialmente das pesquisas elaboradas pelo Prof. Fernando Pimentel Souza, da UFMG. As principais podem ser acessadas aqui, aqui e aqui.

 

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